Veron em noite de Inverno
A goleada ao FC Arouca mostra que Sérgio Conceição quer repetir com Veron o processo já ensaiado antes com outros reforços. São uns meses até os achar aptos para começar jogos de campeonato.
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Chovia copiosamente no Dragão, como que a fazer lembrar aos mais esquecidos que o final de Dezembro anuncia sempre a chegada do Inverno. E, no entanto, a noite foi marcada pela eclosão de Veron, o atacante brasileiro com nome fora de época que foi a surpresa guardada por Sérgio Conceição para a partida. O impacto no jogo do jovem vindo do Palmeiras em Julho foi ofuscado pelo hat-trick de Taremi, mas ele foi igualmente fundamental na construção da goleada do FC Porto ao FC Arouca, estando na origem da recarga que deu o primeiro golo e metendo os passes para o segundo e o quarto (ainda que este tenha sido desviado por Basso). A ver o jogo de Veron lembrei-me do que tinha dito Sérgio Conceição na véspera a propósito de reforços e do tempo que eles levam a servir à equipa. No caso do FC Porto são sempre uns mesitos.
Veron chegou ao Porto no final de Julho e foi ontem pela primeira vez titular no campeonato. Cinco meses depois. Taremi, hoje a principal figura do ataque portista, assinou pelo FC Porto no Verão de 2020 e, apesar de já estar há um ano na Liga Portuguesa, pois vinha do Rio Ave, jogou pela primeira vez de início no campeonato a 28 de Novembro. Entre avanços e recuos, o processo até foi mais rápido em casos como os de Luís Díaz, Evanilson ou Toni Martínez, mas a regra é que Sérgio Conceição demora a apostar a sério nos reforços. “Chegar aqui, a um contexto de FC Porto, com uma exigência enorme... A nossa capacidade para ir buscar alguém que teoricamente não deixe dúvidas não existe. Quanto aos jogadores do mercado nacional que possam vir, quando eles começarem a sentir o que é o FC Porto e a estar mais preparados para a nossa exigência diária, está a acabar o campeonato e não vale a pena”, disse Conceição a propósito da possibilidade de vir a reforçar a equipa agora, no mercado de Janeiro.
A conclusão que se tira daqui é que as seis semanas de interrupção do campeonato, para que se jogasse o Mundial, serviram a Conceição para trabalhar Veron, finalmente preparado para poder justificar os dez milhões de euros que os dragões pagaram por ele ao Palmeiras. Ontem, o brasileiro deu boa resposta, articulando bem os movimentos com os de Taremi – que nem por cá esteve em mais de metade desse período – e conferindo ao FC Porto a vantagem da velocidade e da imprevisibilidade. Com Galeno a abrir jogo numa das faixas, Veron a partir do corredor central, mas sempre disponível para surgir entre linhas a lançar diagonais, e Otávio a alternar entre a direita e o papel de terceiro médio, o FC Porto volta a dispor de um onze capaz de se espalhar no tal híbrido entre o 4x3x3 e o 4x4x2 em que a equipa mostrou a sua melhor cara nos anos de Conceição. E pode aproximar Taremi do local onde ele faz mais falta, que é a área.
É certo que o jogo de ontem foi muito facilitado pelo golo marcado antes dos 30 segundos e que, sem isso, talvez o FC Arouca se tivesse mostrado opositor mais difícil de ultrapassar – foi notória a frequência com que, depois de uns primeiros 15 minutos de empolgamento, os jogadores de Armando Evangelista superavam uma frágil primeira zona de pressão portista e ligavam jogo de maneira a entrar no último terço, faltando-lhe aí a capacidade criativa para se tornarem tão perigosos como eram os dragões na outra metade do campo. Foi aí, nessa qualidade para criar, que o FC Porto marcou a diferença de uma forma maios notória. E essa qualidade, que até podia ser apenas individual, foi também fruto de trabalho de casa feito nas seis semanas de interrupção. A julgar pelo que se viu ontem, o FC Porto parece vir mais forte do Mundial. Sobretudo porque vem diferente e coloca novos desafios a quem pretende contrariá-lo.