O problema da Espanha
Olha que já é embirração. Então a Espanha é campeã do Mundo e tem um problema? Mas tem. E é tão flagrante que dominou a final como nunca ninguém a dominara mas podia tê-la perdido.

Palavras: 1717. Tempo de leitura: 10 minutos (Texto com áudio no Telegram).
Ferrán Torres em 2026 como Iniesta em 2010. A Espanha voltou a ganhar a final do Mundial pelo mesmo resultado, 1-0 após prolongamento, com o golo solitário a aparecer só depois de o adversário ficar reduzido a dez homens, após as expulsões do neerlandês Heitinga, na África do Sul, e do argentino Enzo Fernández, na América do Norte. Tanto ontem como há 16 anos, a Espanha foi a melhor equipa da final e ganhou-a com toda a justiça. Minto. Ontem, não foi só melhor equipa, foi mesmo escandalosamente melhor equipa, a ponto de o primeiro remate argentino ter surgido ao minuto 117 – e mesmo esse foi um cruzamento-remate, de Messi, que ia cruzar mas apercebeu-se que Unai Simon se adiantava para desfazer o cruzamento adivinhado e tentou meter-lhe a bola por cima, ao segundo poste. E, no entanto, a Espanha, justíssima campeã mundial, tem um problema. É que depois de um jogo de sentido único, um jogo em que, na verdade, foi a única equipa que jogou, pôs-se a jeito de deixar escapar o troféu, no segundo remate argentino, uma bola que sobrou no meio da área para o pé direito de Simeone, ao minuto 120+2 – e se tivesse ido ter com um tipo mais dotado, bastava que se tratasse de um Ferrán, que não é propriamente um craque geracional, teria acabado nas redes em vez de sair sobre a barra. Tal como em 2010, quando só desbloqueou o jogo aos 116’, a Espanha esteve a um pequeno nada de deixar a decisão ir para penaltis, onde podia muito bem perder, porque como canta o Sérgio Godinho “a vida é feita de pequenos nadas”. Qual é o problema de Espanha, então? É simples. Nenhuma equipa que domina um jogo da forma que a equipa de Luis de la Fuente dominou a final de ontem pode fazer só um golo – e já no prolongamento – sujeitando-se a esses pequenos nadas. É uma questão de talento na posição específica de avançado? É uma questão estratégica, de investimento porventura excessivo em outras áreas do campo, o preço a pagar pela soma de unidades no meio-jogo, a forma que a Espanha escolhe para potenciar o seu domínio? É a aplicação prática do axioma popular “não podes guardar o bolo e comê-lo”? Afinal, é normal que se a Espanha abusa da presença de jogadores na zona de meio-campo e dessa forma controla o ritmo e a posse, depois não tenha tanta gente na área para fazer os golos. Todos jogam com onze... Mas não creio que essa seja a verdadeira questão. A Espanha acabou os 90 minutos com 87 por cento da posse no último terço, 15 remates a zero e 23 ações na área a duas. É verdade que 23 não são muitas, que o domínio justificaria pelo menos umas 40, não fosse o futebol espanhol tão circular. Mas foram 23 a duas, uma de Simeone e outra de MacAllister – e digo isto para reforçar as duas. No final dos 120 minutos, os números ainda foram mais desequilibrados: 20-2 em remates, 12-0 em remates enquadrados (onze defesas de Dibu Martínez, segundo valor mais elevado do Mundial), 1,94-0,20 em Golos Esperados, 31-6 em ações na área. A Espanha pode chegar pouco, mas chegou as vezes suficientes para construir um resultado que a deixasse ao abrigo de qualquer surpresa. O problema não foi, por isso, estratégico. Foi de talento nos últimos metros do campo. A diferença entre a Espanha de 2024 e a de 2026 esteve em Yamal, que em 2024 tomou o Europeu da Alemanha como seu e este ano estava frágil, a regressar de lesão, a ponto de não se destacar da mediania a não ser nalgumas receções que não enganam. E esteve em Nico Williams, seta vertiginosa de assalto aos últimos metros em 2024 e também ele limitado a ponto de só ter entrado a 20 minutos do fim na final de ontem. Felizmente para Espanha, ainda veio a tempo de ser decisivo.
O problema da Argentina. É muito mais preocupante o problema da Argentina – e na verdade já o venho referindo há alguns jogos, como podem ver, por exemplo, aqui. O maior problema da Argentina é que Lionel Scaloni assumiu premeditadamente a intenção de não jogar a não ser que isso fosse absolutamente necessário. Fê-lo sacrificando o talento de gente como Nico Paz ou Thiago Almada, já para não falar de Lautaro Martínez. A Argentina comportou-se na final como vinha fazendo nas anteriores eliminatórias, isto é, tentou reduzir o jogo ao seu mínimo denominador comum à espera de um lampejo de Messi para fazer a diferença. Scaloni entrou no Mundial como o pedinte de Eduardo Galeano, de chapéu na mão, a suplicar: “una linda jugadita, por amor de Dios!”. Só que, ao contrário daquele, o selecionador argentino até tinha voz ativa no que a equipa produzia. O que a Argentina foi mostrando quando tinha de ir atrás dos resultados permite-nos achar que poderia fazer mais e que se o não fazia era por falta de vontade. Que aquela opção constante pelos duelos, pela picardia, pelo ganhar de faltas para retardar o jogo, era consciente – e, de resto, sendo em contramão com o espírito deste Mundial, ela condiz com o vergonhoso comportamento de toda a equipa, quando esta, em bloco, virou costas à entrega do troféu. A carreira de Messi, toda a história de Messi, merecia outra saída, porque o que se viu não foi perder com honra. Nem depois do jogo, com o tal gesto que muitos aplaudirão porque não entendem o que está em causa, nem durante, onde a Argentina simplesmente não jogou. Já vos falei acima das duas ações na área nos 90 minutos – acrescento agora que em todos os jogos do Mundial só houve um valor menor, que foi a ação única, isolada, do Qatar na área do Canadá no jogo da fase de grupos que perdeu por 6-0, ficando com dez aos 33’ e com nove aos 53’. A Argentina, ontem, teve onze homens em campo até aos 90+3’ – se não jogou mais foi porque não quis, porque não sabe ou porque não conseguiu... Scaloni tentou replicar a manobra da final de 2022, excluindo Paredes para dar a titularidade a um extremo, que há quatro anos foi Di María e ontem foi Nico González. Quando a coisa não resultou, pensou-se que era porque Paredes fazia demasiada falta para a equipa ter bola. Depois, quando, na segunda parte, veio com o médio em vez do extremo, viu-se que não, que era porque Nico não é Di María – e porque Paredes fazia demasiadas faltas, isso sim. Vi hoje um gráfico do Sofascore, mostrando que a diferença do rating médio de Maradona para o resto da equipa argentina de 1986 era menor do que a existente entre o rating médio de Messi e o do resto da seleção em 2026 – e isto é brutal, porque todos os que vimos aquele Mundial temos a noção de que Maradona o ganhou sozinho. A Argentina não foi campeã porque, apesar de tudo, o seu problema é bem mais grave que o de Espanha. Só o tempo nos dirá se é de falta de talento ou de vontade de jogar.
Foi um bom Mundial. Este foi, apesar de tudo, um bom Mundial. E no tudo incluo uma série de coisas negativas, como a aberração das pausas para hidratação em jogos nos quais não fazem falta, criadas apenas para servir interesses mercantis, o tratamento infame à seleção do Irão, a proibição de entrada do árbitro somali ou a cedência da FIFA ao Trumpismo, com o escândalo da despenalização de Balogun a entrar para a galeria de horrores da história do futebol. E não, não foi Infantino que transformou a FIFA numa coisa abjeta – estamos a falar da organização que promoveu a propaganda fascista de Mussolini em 1934, que compactuou com a apropriação de craques austríacos pelo Reich nazi em 1938, que passou ao lado do ‘rapto’, voluntário ou não, do fiscal-de-linha que podia castigar Garrincha antes da final de 1962, que mudou as cidades das meias-finais de 1966 para favorecer a Inglaterra, que deu o Mundial de 1978 à Argentina de Videla, o de 1982 à Espanha de Franco (foi atribuído antes da mudança política), o de 1986 ao narco-estado da Colômbia (primeiro) e ao hiper-corrupto PRI mexicano (depois) e, mais recentemente, o de 2018 à expansionista Rússia de Putin e o de 2022 aos esclavagistas do Qatar. Apesar de tudo isso, se olharmos para o campo, este foi um ótimo Mundial, com bons jogos, boas surpresas até da parte das equipas mais frágeis, a tentativa saudável de dar ritmo ao jogo, com a aceleração das reposições e as indicações para que os árbitros valorizassem menos os micro-contactos, estádios cheios e alegria nas bancadas. Se for assim em 2030, de preferência sem as coisas más, já não ficaremos mal servidos.
A ler
Y además lo pasamos muy bien, artigo do escritor Manual Jabois, no El País a celebrar a vitória de Espanha. Vale a pena ler também o outro lado da coisa, Su noche triste, a carta do dia do argentino Martín Caparrós a Juan Villoro, publicada no mesmo jornal.
The sadness of Lionel Messi’s last tango, artigo de James Horncastle, no The Athletic, focado no que há-de ter sido o último jogo de Messi num Mundial.
How Tuchel’s quest to claim ‘second star’ unravelled, uma longa reportagem de balanço do Mundial de Inglaterra, com os bastidores do grupo liderado por Tuchel. Assinam Jason Burt, Matt Law e Mike McGrath, no The Telegraph.
Un océan d’incompréhensions, história assinada por Damien Degorre, no L’Équipe, a contar também os bastidores do que fracassou na tentativa francesa de ganhar um terceiro Mundial, na despedida de Deschamps.
Nota final
Esta é a última edição das Conversas de Bancada do Mundial. Tal como expliquei aqui, a partir de hoje entro num curto período de férias, em que este Substack será alimentado com a atualização deste ano da série Donos da Bola. A atualidade volta em Agosto. Fiquem atentos.



