Um Messi e dez Enzos
A Argentina já nos deu alguns dos minutos mais empolgantes deste Mundial. Fá-lo quando quer jogar. O problema é que na maior parte do tempo não quer e procura mesmo evitar que haja jogo.

Palavras: 1638. Tempo de leitura: 9 minutos (Texto com áudio no Telegram).
Que golaço, marcou Enzo Fernández ontem, a ressuscitar a Argentina, aos 85’ da meia-final do Mundial, contra a Inglaterra. Ainda por cima, o médio já o tinha procurado mais umas duas vezes, com remates de fora que mereciam melhor sorte. Enzo abriu ali o caminho que, depois, a associação entre Messi e Lautaro Martínez completou, fabricando o 2-1 aos 90+2’. Fui justo, pelo muito que a Argentina jogou depois de se ver em desvantagem no marcador de um jogo que, até ao golo de Gordon, estava mais fechado do que uma ameijoa estragada. E cheirava pior, também. Porque Enzo, como a generalidade dos jogadores desta Argentina, mostra uma qualidade que para muitos – para mim, por exemplo... – é sobretudo um defeito: uma picardia e um domínio das artes negras que se destina, sobretudo, a evitar que haja jogo. A Argentina chega à final com um percurso peculiar: eliminou Cabo Verde no prolongamento (3-2), passou pelo Egito virando de 0-2 para 3-2 nos últimos dez minutos, ganhou à Suíça (3-1), também no prolongamento, mas só depois de o adversário ficar com dez e de, assim, lhe permitir que reassumisse o controlo de um jogo que estava a escapar-lhe, e voltou a virar uma partida, a meia-final contra a Inglaterra, com dois golos nos últimos cinco minutos. O que este percurso nos diz é que, quando quer jogar, a Argentina liderada por um Messi vintage, é pouco menos do que imparável. Mas também que, na maior parte do tempo, não quer jogar e se limita a esperar. O Enzo que bateu Pickford com o remate magistral dos 85’ é o mesmo que optou, logo a seguir, por celebrar o momento, não com os seus adeptos, mas com aqueles a quem desiludiu, abrindo e fechando as duas mãos antes de as colocar nos ouvidos, como quem diz: “Falem para aí, que não vos escuto!”. É o “Que mirás, bobo?!” do Messi de 2022 transposto para 90 minutos transformados em provocação permanente. A lógica da Argentina pode até ser simples: temos Messi, o maior ‘match winner’ do Mundial, mas é um Messi que já tem 39 anos e que, por isso, já não apresenta a constância nos 90 minutos que tinha no auge, pelo que o melhor é reduzir o jogo ao mínimo denominador comum, de forma a que os lampejos de “Sua Genialidade” tenham um maior peso específico no bolo final. Quando, a perder, Lionel Scaloni abdicou de Paredes, chamando Nico González para a faixa esquerda, e depois o forçou até a fazer todo o corredor, trocando o lateral Tagliafico por mais um ponta-de-lança, Lautaro Martínez, estava a passar a mensagem de que agora, sim, era para jogar. E isso deu-nos os tais momentos de Messi, momentos como o do segundo golo, um cruzamento de pé direito a entrar no milímetro quadrado exato, na única zona em que Lautaro podia sobrepor-se ao exército de defesas centrais que Tuchel acumulara na área. Mas antes, o que a Argentina nos dera tinha sido uma sucessão de lances corpo-a-corpo, sempre à procura de faltas e mais faltas que permitissem quebrar o ritmo – a segunda parte teve mais oito minutos do que a primeira, mas esta teve quase o triplo das faltas (19 para sete). Foram picardias, como o soco de Enzo na nuca de Anderson, logo aos 3’. Foram conversas paralelas, bolas lançadas para dentro do campo para retardar lançamentos laterais, gente a pôr-se à frente da bola para evitar reposições rápidas. Podemos explicar a dimensão duelística do jogo de ontem com os seus antecedentes históricos, do “Roubo do século” de 1966 à guerra das Malvinas de 1982, da “Mão de Deus” de 1986 ao golo de Michael Owen em 1998, mas esta tem sido a identidade argentina ao longo de toda a prova, sobretudo desde que começou a fase a eliminar e o peso da responsabilidade tem aumentado a cada 90 ou 120 minutos. Scaloni consegue tirar muito de Julián Álvarez – ainda ontem o encostou à esquerda enquanto quis que não houvesse jogo –, deu à equipa a combatividade de Simeone, segundo da dinastia, em vez de De Paul, que só veio para o ataque final, mas desistiu de Thiago Almada, de Nico Paz, até de Lautaro, a não ser em momentos desesperados como o de ontem. Para ganhar este Mundial, apostou tudo num Messi e em dez Enzos, daqueles que sabem jogar mas na maior parte das vezes preferem evitar que haja jogo. E é pena.
E a Bola de Ouro? Não é que esteja a sofrer antecipadamente mas, como um dos 100 jurados da Bola de Ouro da France-Football, já começo a fazer contas de cabeça à decisão que terei de tomar daqui a uns três meses: o escalonamento dos dez melhores jogadores do Mundo em 2026. Já se sabe que o Mundial pesa sempre muito nas votações dos anos em que se joga e, olhando para esta edição, há muito mais de Messi na Argentina do que há seja de quem for na equipa de Espanha, que até entra como favorita na final de domingo. Messi só não seria o melhor jogador do Mundial se França ou Inglaterra ganhassem a final – o que não vai suceder. Aí, sim, poderíamos pensar em Mbappé ou Bellingham, talvez até em Olise ou Kane. Mas em Espanha o que vale é uma ideia de coletivo e, excluindo Rodri, que voltou a ser aquilo que era em 2024, o potenciador de uma ideia comum, as maiores figuras da Roja não têm sido assim tão impactantes. Não há muito Yamal, Pedri saiu do onze nos últimos dois jogos... O melhor jogador deste Mundial está, por isso, encontrado: será Messi, autor até agora de oito golos e quatro assistências, presente em 12 dos 19 golos que a Argentina marcou para chegar à final. Quer isso dizer que vai ganhar mais uma Bola de Ouro? Aí, já tenho algumas dificuldades. Messi passou onze dos 12 meses do ano a jogar a MLS, uma Liga periférica que vale exatamente zero na fila do pão. O Mundial prova que podia ser igualmente relevante se ainda estivesse numa das Big Five ou a jogar Champions? Talvez. Mas a verdade é que não está. Se me perguntarem hoje, acho que sim, que Messi vai voltar a ser Bola de Ouro, mas ainda não estou convencido até ao ponto de caucionar a espécie de prémio ‘honoris causa’ que isso refletiria.
A traição de Tuchel. Ontem, na edição do Último Terço, na Antena 1, em que fiz a antecipação da meia-final da noite (há link aqui, e podem aproveitá-lo para seguir o podcast, que também tem o Rui Malheiro), disse ao José Carlos Trindade que a minha desconfiança com Inglaterra se baseava no facto de Thomas Tuchel ser um “overthinker”, um daqueles treinadores que pensa demais e dessa forma acaba por abalar o equilíbrio global e a capacidade de expressão das suas equipas. É uma definição para Roberto Martínez também, por exemplo, como bem nos apercebemos. A minha desconfiança baseava-se na recusa completa da criatividade que já estivera na base da convocatória final, sem Palmer ou Foden, por exemplo, mas também (ou sobretudo) naquilo que já tinha visto de Inglaterra no torneio, no excesso de cautelas que a levava a atacar com pouca gente, a ter sempre os médios fora do bloco adversário, reduzindo Anderson e Rice, centrocampistas de mais de 100 milhões de euros cada um, a simples burocratas. Tuchel preparou um plano estratégico para o jogo da Argentina, com os dois extremos, Rogers e Gordon, a apertarem os centrais adversários, e depois com Kane a seguir Paredes, o médio-âncora, de modo a impedir uma saída de bola limpa e a ligação à frente, assim estancando a alimentação a Messi. No meio do plano, viu-se a ganhar, não com um golo caído do céu, que houve talento de Kane a lançar, de Rice a ganhar a segunda bola, de Rogers a cruzar e de Gordon a antecipar, da mesma forma que houve incompetência de Molina a fechar dentro. O pior foi o que veio depois de Tuchel queimar o fusível: com pelo menos 40 minutos por jogar, começou a ‘mandar’ a equipa para trás, se não com ordens, ao menos com as mensagens subliminares que estavam subjacentes às substituições que fez. Trocou o extremo Gordon por mais um defesa-central (Konsa), a seguir abriu este como lateral para tirar Reece-James e fazer entrar o gigante Burn e, para acabar com o exílio de Bellingham na faixa, ainda abdicou de Rice para meter um lateral (O’Reilly) a jogar por lá. A Inglaterra, que já se recusava a criar por cautela, para não se desequilibrar, traiu tudo o que significa ser inglês no futebol e acabou por sofrer dois golos, o primeiro com nove jogadores dentro da área e o segundo com dez. Comprova-se assim que, na maior parte das vezes, o que é difícil é pensar fácil.

A ver
Hoje e amanhã não haverá jogos. O Mundial regressa no sábado, com o jogo de atribuição do terceiro lugar, o França-Inglaterra (22h, Sport TV5 e LiveMode TV). As Conversas de Bancada voltam no domingo, a antecipar a final.
A ler
In star-powered tournament, Spain’s collective will shines, é uma análise de Sid Lowe, que é o correspondente do The Guardian em Espanha, à maior virtude da La Roja, o coletivismo.
The inside story of France’s World Cup: Why did the favourites fall short?, análise de Adam Crafton, no The Athletic, à queda da seleção que era apontada como favorita pela maior parte dos especialistas, a França.



