Uma máquina afinada
A França ganhou o quarto jogo no Mundial, a marcar sempre pelo menos três golos. A forma como Mbappé, Dembelé, Olise e Barcola ou Doué convivem é o exemplo do que deve ser uma máquina de futebol.

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Foram três ao Senegal, outros três ao Iraque, quatro à Noruega e agora mais três à Suécia, no primeiro jogo dos 16-avos-de-final deste Mundial que foi verdadeiramente desequilibrado. É que foram 3-0 mas podiam ter sido cinco ou seis – a Opta catalogou seis situações de ataque francês como “grandes oportunidades”, juntando aos dois últimos golos a bola de Mbappé ao poste, a recarga de Dembelé à bicicleta que Olise meteu no mesmo poste e ainda um lance perdido pelo mesmo Olise aos 71’ e outro de Barcola, aos 82’. No lote não entra o primeiro golo, que Mbappé inventou com um drible a Gyökeres após um canto, mas que nasceu muito da qualidade da finalização, com muita gente entre o rematador e a baliza. E aquilo que mais importa aqui nem é a forma como os franceses impediram o meio-campo sueco de lançar Gyökeres na esquerda, a aproveitar as subidas de Koundé, sempre com uma pressão eficaz no momento sem bola. Ou o modo como Isak voltou a ficar fora da partida. O que mais importa aqui é que, depois de 45’ marcados pela rigidez, logo a abrir o primeiro jogo, contra o Senegal, os Três Mosqueteiros de Didier Deschamps desbaratam qualquer defesa pela mobilidade e imprevisibilidade, associadas a recursos técnicos que não se veem muito por aí. E, como na obra de Dumas, os Três Mosqueteiros são quatro – Barcola ou Doué fazem de D’Artagnan e juntam-se, um de cada vez, a Mbappé, Olise e Dembelé. Mbappé fez ontem mais dois golos, o primeiro no tal lance individual seguido de remate à procura da rede lateral do outro lado, o segundo começando por recuar para lançar Barcola, de calcanhar, mas só para depois surgir atrás da última linha adversária, a culminar a combinação deste com Olise. Nesta equipa, o capitão é muito mais do que o finalizador, aparecendo muitas vezes a ligar nas entrelinhas. Ainda assim, o oficial de ligação por excelência é Olise, o visionário capaz de descobrir trajetórias que mais ninguém vê, autor de mais duas assistências – e já são cinco em quatro jogos deste Mundial – e ainda capaz de nos surpreender com gestos como a bicicleta “à Negrete” com que meteu uma bola perdida no poste. Seria um golaço. Sobra Dembelé. E que bom há-de ser para um treinador ver sobrar o Bola de Ouro. Anti-vedeta por excelência, Dembelé é capaz de ler bem o que o jogo pede dele, se é que abra na direita, se é que vá ocupar a posição do ponta-de-lança – coisa que Barcola também faz. Já vai com três golos e duas assistências no Mundial e ontem voltou a destacar-se nos passes para finalização (foram quatro). O que torna a máquina francesa mais difícil de contrariar é que ela se metamorfoseia com facilidade – e foi isso que o treinador mudou logo ao intervalo do primeiro jogo, trocando um ataque amarrado por uma autogestão em que parecem ser os quatro da frente a decidir onde vão aparecer a cada lance. Funciona tão bem que se vai enraizando mais a ideia de que a vitória final da França é uma inevitabilidade que só os próprios franceses poderão impedir. E o máximo que pode dizer-se a favor da emoção é que eles são bons nisso também.
Jogar com dez e ganhar. Se a França é o paraíso da incerteza, a Noruega assume-se como o cúmulo da previsibilidade. Joga como joga e no final aparece Haaland para finalizar. Ontem, a Costa do Marfim foi a melhor equipa no campo pelo menos entre o momento em que Nusa fez um golaço, já na reta final da primeira parte, e o empate de Diallo, aos 74’. Depois disso, encolheu-se e pôs-se a jeito, mesmo de um adversário que insiste em jogar com dez. Pode dizer-se que foi bem feito, portanto. A Noruega só usa o ponta-de-lança para uma coisa, que é para marcar os golos. OK, usa-o para duas, que ele também é útil na própria área, a defender bolas paradas. E, numa coisa e na outra, ele não falha, nem sequer nos momentos em que na verdade falha. Mas não se lhe pede que participe, homessa! O golo com que, a quatro minutos do fim, Haaland desempatou a partida, impedindo o terceiro prolongamento consecutivo no Mundial, nasceu de uma invenção de Bobb, que descobriu Berg atrás da linha defensiva marfinense com um passe magistral, e depois de uma má receção do ponta-de-lança. O passe atrasado do médio deixava Haaland com metade da baliza aberta, mas a bola acabou por entrar mesmo ao meio, onde o guardião Fofana só não chegou por um tris. É que, ao contrário do que viria a fazer Mbappé mais à noite, quando colocou um remate de baliza aberta tão ao detalhe que o fez bater no poste do lado contrário ao do guarda-redes, Haaland não tentou sequer aprimorar a finalização, acertou mal na bola, mas ela entrou na mesma. A Noruega até tem elementos interessantes no onze, como Nusa, Odegaard ou Berg, boas alternativas em Aursnes, Schjelderup e Bobb, mas terá Stale Solbakken achado que todos eles não chegam para competir na arte de jogar futebol e que o melhor que ele tem mesmo é o Terminator que mete na frente. E então montou uma máquina diferente, uma máquina onde se abdica de um homem no jogo para o ter como finalizador. Funciona, mas resta saber até quando.

O melhor México. Será esta a melhor seleção mexicana de sempre? Eu gosto. Gosto da ideia, da assimetria que permite meter Quiñones a ameaçar por dentro e Alvarado por fora, das chegadas de Gallardo e da multiplicidade de opções a meio-campo. Desde o início do Mundial, Aguirre já fez jogar por ali de início gente suficiente para formar dois triângulos: Lira, Gutiérrez e Fidalgo, Álvarez, Mora e Romo, ainda com Obed Vargas para as sobras. Sempre sem vacilar e a ponto de o jovem Mora e o surpreendente Romo já terem ganho a titularidade à frente do pêndulo que é Lira. O futebol ambicioso de Becacecce, com a defesa alta mas nem sempre a ser correspondido com a pressão a que ela obriga, transformou o Equador numa espécie de cordeiro à espera da degola que o golo de Quiñones tão bem exemplifica: no momento do passe de Alvarado, havia 21 jogadores dentro do meio-campo mexicano, incluindo o autor do tento que abriu a vitória (2-0) desta madrugada, logo aos 22’ mas ao sétimo remate mexicano. Jiménez, em ação de pressão, fez o segundo, no tiro seguinte, deixando o Equador sem alternativas. E a pergunta mantém-se: será esta a melhor seleção mexicana de sempre? As quatro vitórias e os 8-0 de score goleador com que entra nos oitavos-de-final parecem fazer crer que sim. Mas a resposta depende ainda de duas proezas aparentemente inatingíveis em acumulado. Derrotar a Inglaterra (ou a RD Congo, logo se verá...), ainda no santuário que é o Azteca – e nenhuma equipa europeia ali ganha desde 1981, quando ali se impôs a Espanha de Santamaría, em desafio particular. E depois, se a tal chegarmos, impor-se ao vencedor do Brasil-Noruega já em Miami, sem ter a proteção do fator casa e da altitude.
O teste do algodão. Pierluigi Collina fez um balanço muito satisfatório das arbitragens da fase de grupos do Mundial e das medidas tomadas para reduzir o antijogo. As substituições estão mais rápidas, os cantos, os lançamentos laterais e os pontapés de baliza também e houve uma “redução significativa”, diz ele, dos pedidos de entrada das equipas médicas em campo, o que se atribui à necessidade de os jogadores ficarem um minuto de fora se forem assistidos. Erros crassos, digo eu, que Collina não se esticou por aí, houve dois, que foram a não marcação de um penalti a favor do Gana na partida com a Inglaterra e a validação do golo da Alemanha face ao Equador. Mas há que separar aqui duas coisas, a avaliação de erros e a tendência geral. E a tendência geral é para que se apite menos, resistindo ao apelo de sancionar faltinhas, o que contribuiu logo para que diminuíssem os pisões e as cotoveladas ou as mãos na cara. Ora isso vem resolver uma dúvida que eu tenho há muito. Vejo futebol a sério há mais de 40 anos e nunca vi tanto pisão ou mão na cara como desde que há VAR – estarão essas ações a aumentar? E não, não estão: o que aumentou nos últimos anos foi a atenção que lhes damos, fazendo crescer as queixas. A desvalorização desses atos pelo VAR leva imediatamente a que diminuam também as queixas. Tudo somado, contribui para que possamos ter jogos bastante mais fluídos e menos polémica em volta das arbitragens. Por estes dias li no Twitter alguém ironizar que ao sair de Portugal João Pinheiro se tornara um bom árbitro, mas a verdade é que o que mudou não foi ele: foram os óculos com que se olha para o que ele faz. A nova tendência da arbitragem é boa, mas o verdadeiro teste do algodão vai fazer-se quando ela for aplicada em Portugal e os comentadores começarem a ajuizar os lances de acordo com as agendas dos clubes. “Há ali um contacto!”, dirão.
A ver
Inglaterra-RD Congo, 17h, Sport TV5
Bélgica-Senegal, 21h, RTP1, Sport TV5 e LiveMode TV
Estados Unidos-Bósnia, 1h, Sport TV5.
A ler
Penalty heartache driving Tuchel, história contada por Jonathan Northcroft, no The Times, acerca de como foi uma derrota nos penaltis contra o Bayern de Guardiola que levou o atual selecionador inglês a preparar sempre de forma metódica e detalhada eventuais desempates. E já se sabe que os ingleses têm essa coisa com os penaltis...
Secret training regime behind Wissa’s sudden return to form, artigo de Luke Edwards, no The Telegraph, detalhando o treino personalizado que permitiu a Eddie Howe recuperar o ponta-de-lança congolês no Newcastle United.
Are Portugal any good?, pergunta e responde Mark Carey, no The Athletic. Vale a pena ler, que vai de Ronaldo às dificuldades do ataque posicional e ao desastre que tem sido a tentativa de pressão alta.



