Este Substack tem um prémio
Recebi hoje, em nome deste Substack, o Prémio CNID para Jornalismo Online de 2026. É razão de orgulho, mas também de reflexão. Porque o meu último projeto premiado morreu jovem...
Recebi esta tarde o Prémio CNID de 2026 para Jornalismo Online, atribuído pelo trabalho que venho fazendo aqui, neste Substack. É o segundo que o Clube Nacional de Imprensa Desportiva tem a amabilidade de me conceder em nome individual, o terceiro que recebo. Fui em 2008 agraciado com o Prémio de Imprensa Escrita e em 2018 com este mesmo prémio de Jornalismo Online, em nome do coletivo Bancada, o site que idealizei e tinha feito nascer um ano antes.
Além de a vocês, os subscritores deste Substack, cabe-me agradecer ao CNID pela distinção, mesmo temendo que, em boa parte, ela se deva ao facto de ter bons amigos na direção da associação de imprensa desportiva e, depois, à constatação para mim preocupante de que o jornalismo online é, em Portugal, território pouco populado e cada vez mais submetido aos conteúdos produzidos por ‘influencers’, que na verdade não entram nesta categoria e não concorrem a estes prémios. No nosso mercado, o jornalismo online não tem escala para viver da publicidade a não ser que se lance nas águas turvas dos conteúdos virais - e daí que os sites e as apps dos jornais desportivos estejam cheios de coisas que só servem para chamar a atenção, mas que não passariam no crivo de qualquer editor que fizesse o seu trabalho a pensar mais no jornalismo e menos nos cliques.
Sei perfeitamente que os prémios não significam mais do que a apreciação vinda da classe, esse ‘Clube do Bolinha’ que dificilmente reflete o país real. Por alguma razão, um ano depois de ter ganho este mesmo prémio que recebi hoje, o Bancada foi forçado a trocar o jornalismo que lá fazíamos por outro tipo de conteúdos, mais ligeiros, menos trabalhados e, sobretudo, virais (há link aqui). Era preciso faturar mais (e isso mede-se em cliques) e gastar menos (salários e custos de reportagem). O projeto tal como o criei, o site que ganhou o prémio CNID, morreu jovem, porque não era viável. Ganhou outra vida, uma vida na qual deixou de fazer sentido a minha presença, bem como a dos jornalistas que tive comigo no site. Um deles, o Diogo Cardoso Oliveira, que até faz o favor de ser subscritor deste Substack, trabalha hoje no Público e foi um dos premiados do dia, vencedor do prémio Desporto com Ética para Imprensa. Que orgulho, Diogo!
Foi depois da morte do Bancada recém-premiado que começou a ganhar espaço na minha cabeça a passagem do site, viabilizado pelo clique, para a newsletter, paga por subscritores. E uma coisa vos garanto, do alto dos meus 56 anos de idade (e quase 40 de carreira em jornalismo): este Substack, que nasceu no final de 2021, não vai abdicar de princípios orientadores em busca da apreciação das massas. Não me fecho à evolução, estou permanentemente aberto a novos formatos, à inteligência artificial e ao que ela tem para nos dar, a tudo o que o futuro nos reserva, mas aqui, enquanto eu tiver tempo e energia para dedicar a este projeto, vou continuar a preservar os valores mais elementares do jornalismo.
Ao fim de quase cinco anos, este Substack continua, quem sabe se por isso, longe de ser um negócio viável. Continua a levar-me mais horas de trabalho do que provavelmente seria racional dedicar-lhe se desse mais importância ao facto de apenas 3,9 por cento de subscritores terem dado o passo indispensável para que ele sobreviva, que é tornarem-se Premium.
Este Substack continua a ser, em parte, uma teimosia. Mas é precisamente essa teimosia que o mantém vivo. E isso deve-se também a quem está desse lado e decidiu que vale a pena pagar pelo jornalismo que quer ler. Porque, no fim, a verdadeira independência editorial começa aí.




António, parabéns pelo prémio. Continue a ser teimoso, e a levar avante este projecto. Encher chouriços com arbitragem e novelas de treinadores já há muito por aí. Até a imprensa desportiva dita "de referência" não sabe fazer outra coisa. Ouça-se a tristeza que são as conferências de imprensa. Diferentes "jornalistas" as mesmas perguntas ad nauseum. Poucos são os jornalistas que perguntam sobre o jogo. Não deveria ser esse o objectivo destas conferências? Haveria muito mais para dizer mas sabe do que falo.
Parabéns António. Não tanto pelo prémio em si mas mais pela teimosia, resiliência e amor e paixão que tens pelo jornalismo puro que continuas a praticar e a defender.
Até podes querer dar a entender que são os bons amigos que tens que te premeiam mas o teu excelente trabalho jornalístico está aí, diáriamente, para que todos possam ler.
Forte abraço.
P.S - Será que a Joana Marques também vai falar em ti desta vez?😃😃