A falha no plano
O plano do Benfica em Munique não falhou por ser excessivamente defensivo. Falhou porque até o escandaloso Casa Pia de Alvalade soube sair do seu 6x4x0 para chegar mais vezes à baliza contrária.

Palavras: 1237. Tempo de leitura: 6 minutos (áudio no meu Telegram).
Se há alguma coisa que Bruno Lage precisa de assumir, depois da derrota (1-0) do Benfica em Munique, ontem, não é nenhuma vergonha por ter desenhado um plano de jogo orientado para o momento defensivo ou por ter saído da Alemanha sem pontos. Tanto uma como a outra coisa são absolutamente normais e aceitáveis. Se havia alguma coisa que Bruno Lage precisava de assumir era que se enganara redondamente – ou então tentara enganar as pessoas... – quando explicou, antes do desafio, a mudança radical que fez no onze com o desejo de ter bola e mais qualidade em posse, porque o que aconteceu foi exatamente o inverso. O recorde negativo que o Benfica reclamou para si no jogo de Munique não transformou os encarnados sequer na corporização internacional do que o Casa Pia tinha feito em Alvalade, no desafio que levou os observadores da nossa Liga a bradar pelo fim dos tempos ou do futebol como espetáculo entretido. É que o Casa Pia, nesse jogo, ainda chegou algumas vezes à baliza do Sporting e o Benfica, ontem, não conseguiu sequer levar a bola até perto dos postes de Neuer. E esse é que foi o verdadeiro problema.
Em Munique, o Benfica foi a equipa que menos rematou em 72 jogos da Liga dos Campeões de 2024/25: fez apenas uma tentativa, se é que podemos chamar tentativa àquele pontapé de Kökçü, de antes da linha de meio-campo, ao minuto 39. A Opta Sports chamou, daí que ele apareça na estatística: um remate contra 23 do Bayern. O mínimo até aqui na Champions tinham sido os três remates do Girona FC na visita ao Paris Saint-Germain, do Lille OSC em Alvalade contra o Sporting e do Slovan Bratislava na receção ao Manchester City. Acontece que não foi só esse parâmetro a deixar o Benfica muito abaixo do exigível. Os encarnados protagonizaram apenas quatro toques dentro da área do Bayern, segunda pior marca da competição, apenas à frente dos dois que o Slovan fez contra o City. E, com 28 por cento de posse, registaram o quarto jogo com menos bola na prova, só à frente dos 26 por cento do Sparta Praga em Estugarda e do Slovan nesse já citado desafio com o City e dos 21 por cento de bola que o Sparta teve em Manchester contra a equipa de Pep Guardiola, que já se sabe quer sempre a bola para ela em regime de exclusividade. Isto foi mau? Foi, sim senhores. O Casa Pia, no famoso jogo da linha de seis atrás, do 6x4x0 em Alvalade, fez seis remates e teve dez ações na área adversária para apenas 20 por cento da posse de bola.
É por isso que a discussão acerca do plano de jogo do Benfica em Munique é quase filosófica. Há quem sustente que sim, que aquela era a forma correta, porque este Bayern de Vincent Kompany era uma das equipas com mais golos marcados na Europa – Bruno Lage até disse, no fim da partida, que até ser ontem superada pelo FC Barcelona era mesmo a mais goleadora, quando na verdade ia um golo atrás do Sporting, ainda que em menos três jogos. E há quem sustente que não, que o plano não só era incorreto como era até inaceitável que um clube com a grandeza do Benfica pudesse comportar-se assim num palco tão prestigiado. Mas isso, lá está, são opiniões e a diversidade de opiniões é que faz o mundo andar para a frente. Na minha visão, o que falhou no plano não foi ele ser defensivo. Foi a noção daquilo que ele poderia proporcionar. Foi a ilusão de que com aquele plano e com os onze jogadores escalados para o interpretar o Benfica poderia fazer mais do que aguentar o embate. Meter três defesas centrais não é o fim do Mundo, porque olhando para a forma de atacar do Bayern, uma equipa onde os extremos procuram sempre a desmarcação interior, nas costas da última linha adversária, entre central e lateral, fazia sentido preencher melhor esta última linha com a adição de mais um elemento. E a verdade é que o Benfica conseguiu durante boa parte do tempo bloquear o Bayern, que só fez o primeiro remate aos 30 minutos. Se ia ser possível aguentar por muito mais tempo já me parece discutível – e tanto assim é que nesse derradeiro quarto-de-hora da primeira parte, quando a fadiga se refletiu numa natural propensão para atrasar os tempos de chegada das coberturas benfiquistas, os alemães conseguiram efetuar dez remates e foi Trubin a impedir o desbloquear do marcador.
O que já não parece muito discutível é que aquele fosse o onze correto para interpretar este plano se a ideia era depois ter, conforme anunciado por Lage, “mais qualidade na posse” ou potenciar as saídas em transição e os ataques à profundidade, razão apontada para a escolha de Amdouni, por exemplo. Porque, visto o jogo, me parece evidente que não era. Kaboré nunca deu saída pela direita – só entregou duas das seis bolas que tentou passar em 45 minutos até ser substituído. Renato Sanches não tem termo de comparação, porque foi a primeira vez que jogou tanto tempo, mas talvez por isso se tenha encolhido um pouco, estando muito menos ativo do que os companheiros de meio-campo, com uma ação a cada 2’46’’, face ao 1’52’’ que, em média, levou Kökçü a intervir, e ao 1’40’’ de Aursnes. Sentindo falta de referências frontais, que estava toda a gente atrás dele, o médio turco saiu com apenas 64 por cento de passes certos, quando a sua média da temporada está nos 80 por cento. Amdouni não foi nunca o avançado combinativo de que a equipa precisava para subir no campo – a maior arma de Pavlidis – porque, a crer no que disse Lage antes do jogo, o treinador contava que ela combinasse sem ele, de forma a libertá-lo para atacar a profundidade em desmarcações de rotura. E, sem Di María, a quem o treinador terá sentido que não podia pedir 90 minutos de compromisso a fechar no corredor lateral, como pediu a Aktürcoglu nos 56 minutos em que ele esteve em campo, faltou ao Benfica a capacidade para inventar perigo e impedir o Bayern de manter o um para um atrás, destacando apenas um dos centrais para controlar o atacante contrário e libertando o outro para ações de construção avançadas.
O jogo é uno, como se sabe. O modo de uma equipa defender influi na maneira como ataca, da mesma forma que o seu modo de atacar influi na maneira de defender. É difícil estabelecer aqui uma linha divisora, mas creio que o fracasso do Benfica no jogo de Munique se deveu mais à sua incapacidade para atacar do que à opção por se focar na defesa e que, mais do que com o plano defensivo estabelecido pelo treinador, isso teve que ver com as escolhas que este fez para o onze e, sobretudo, com a falta de rotinas de transição apoiada de uma equipa que sempre preferiu ataques rápidos em campo aberto. Isso também se trabalha e o que o Benfica mostrou em Munique foi que não o terá feito.





A grande questão para mim é se é boa ideia uma equipa mudar completamente o plano a que está habituada, apenas por defrontar um adversário forte, isso vai além do baixar ou subir linhas. O Benfica anulou-se ao mudar a sua identidade e isso nunca é bom. O Casa Pia mudou e chegou mais vezes à baliza, mas perdeu na mesma. O Benfica mudou, fez pior que o Casa Pia e perdeu na mesma. Lage cometeu o erro de Schmidt quando este abdicava do ponta-de-lança, mesmo correndo sempre mal.
Esta é a questão com que as equipas portuguesas geralmente se defrontam: manter a identidade na Europa contra adversários mais fortes e provavelmente perder, ou mudar (e correr o risco de perder também).
Só conheço uma equipa que resolveu esta equação. Chama-se Atlético de Madrid (que em vez de jogar contra o Real Madrid como jogaria contra o Algeciras, joga contra o Algeciras como se jogasse contra o Real Madrid), mas (quase) ninguém gosta.
Isto merecia pelo menos ser bem discutido.