A ciência é coisa chata
O Arsenal foi um justo campeão inglês, mas não foi em nenhuma circunstância um campeão entusiasmante. Como tudo o que é minuciosamente preparado, falta-lhe centelha. E caberá ao futebol evoluir daqui.

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O empate (1-1) do Manchester City frente ao Bournemouth, ontem, lançou a festa em London Colney, onde a equipa do Arsenal estava reunida para ver o jogo e, eventualmente, celebrar a conquista da Premier League de 2026 – o que aconteceria desde que o City não ganhasse. A silhueta em cartão do troféu, que há anos está naquelas mesmas instalações, à espera de ser substituída pelo prémio real, deixará de uma vez por todas de ser uma das manobras de mentalização em que Mikel Arteta se especializou – como a oliveira centenária que lá plantou ou os treinos a misturar o domínio de bola com a manipulação de canetas que fizeram furor nas últimas páginas dos tablóides antes da eliminatória de Champions contra o Sporting. O Arsenal que há um ano, após o terceiro segundo lugar consecutivo, foi gozado em Anfield Road com um cartaz onde se lia “sempre dama-de-honor, mas nunca noiva”, está longe do futebol-champagne dos Invencíveis de Arsène Wenger em 2004, é mesmo a corporização máxima do aborrecimento num campo de futebol, sobretudo porque é o mais científico de todos os campeões ingleses. Ali, tudo foi estudado e delineado de forma firme e detalhada, desde a Unidade de Inteligência às sessões de mentalização e ao trabalho nas bolas paradas, com passagem pelo reforço da profundidade do plantel e pela concessão de Arteta a ideias que estão muito longe das que lhe marcaram as convicções de formação. O Haramball deste Arsenal é tendência um pouco por todo o lado e a tarefa do futebol nos tempos que se seguem não é só derrotá-lo, como se faz a todos os campeões, necessariamente perenes: é encontrar-lhe uma alternativa que seja sedutora ao mesmo tempo que se mostre capaz de ganhar.



